A história do Boca de Ouro acontece em Madureira, subúrbio do Rio de Janeiro, mas na montagem da companhia, o espetáculo se desenvolve em um outro cenário. “Pensamos em trazê-lo para o interior de uma casa que poderia ser de um mafioso pertencente a qualquer lugar do mundo. Neste ambiente intimista, duas portas se abrem para o interior da casa de D. Guigui, a personagem que conta a história do Boca de Ouro por meio de três versões diferentes”, conta Ione de Medeiros, que também assina cenografia e figurino.

Boca de ouro
Ione, que iniciou a carreira artística como pianista, conta que os espetáculos do GOM (Grupo Oficcina Multimédia) possuem um conteúdo mais abstrato e são criados justamente a partir de um olhar que integra várias linguagens artísticas. “Entrei para o teatro pela porta da música, então penso a cena a partir de movimento e sonoridade. O aparato visual das peças que dirijo têm formas e gestos criados a partir de elementos que a música sustenta”, explica.
Na montagem, os integrantes se dividem em diversos personagens e o Boca de Ouro é duplicado, interpretado por dois atores. Mesmo com a presença de uma atriz, os atores fazem papéis masculinos e femininos. As roupas são escolhidas de acordo com a situação ou com o temperamento dos personagens e artistas pop aparecem como referência no figurino da peça. “Michael Jackson é uma afinidade eletiva presente no figurino e na dança. Michael foi lembrado por sua história como pop star que escolheu ser enterrado em um caixão de ouro, o mesmo sonho do personagem do Nelson Rodrigues”, explica.
A artista diz que a ideia de retornar a uma peça de dramaturgia mais tradicional surgiu após a criação da peça Macquinária 21 (2016), inspirada pela tragédia Macbeth, de Shakespeare. “Nelson Rodrigues tem muito em comum com Shakespeare, como pelo fato das personagens de ambos serem vítimas de desejos inconscientes e incontroláveis”. Na montagem, Ione fez questão de preservar expressões, gírias e maneirismos contidos no texto de Nelson. Para ela, esses recursos conferiram agilidade e um modo mais fluído de construir a peça.
O cenário escolhido para dialogar com esse estilo é bastante versátil: uma porta que se levanta torna-se a casa de dona Guigui, e uma mesa que serve de escrivaninha numa redação de jornal também faz às vezes de um caixão. Outros elementos simples e com usos variados estão repartidos no palco na forma de um triângulo, o que também fortalece a proposta do próprio enredo, um entrelace de três histórias.
SINOPSE
Boca de Ouro, de Nelson Rodrigues, ambientada no universo da zona norte do Rio de Janeiro, tem como mito um personagem suburbano, cuja figura emblemática vai ser associada ao submundo do crime. O tema da violência e da disputa pelo poder foi ampliado e, este olhar suburbano, estendido a marginais mundialmente conhecidos. O enfoque da encenação recai sobre o texto falado, mantendo a integração de som, imagem, movimento e material cênico particular ao Grupo Oficcina Multimédia num diálogo com a dramaturgia de Nelson Rodrigues. A direção é de Ione de Medeiros.
SERVIÇO
Boca de Ouro
De 16 de maio a 9 de junho de 2019
Quintas, sextas e sábados, às 21h, e domingo, às 18h
Local: Sesc Santo Amaro (R. Amador Bueno, 505 - Santo Amaro)
Ingressos: R$ 30 (inteira), R$ 15 (meia) e R$ 9 (credencial plena).
Capacidade: 279 lugares.
Duração: 85 minutos. Classificação: 14 anos.